Sei que o farás por mim; e por isso, esteja lá onde estiver quando abrires esta carta, fica lá a saber que terei muito orgulho de ti (...)
CARTA AO FUTURO

Quando abrires esta carta, terás feito dezoito anos.
Não quero que a abras antes... porque entendo, (bem ou mal), que a tua imaturidade não iria certamente permitir entender plenamente tudo o que te quero dizer.
Se eu cá já não estiver... que o eco da minha voz contida nesta missiva, seja razão bastante para uma tua breve reflexão... feita talvez de saudade!
Minha neta, tudo o que te vou dizer resulta de uma vivência rica que desfrutei e que num gesto de ternura te quero transmitir aqui e agora.
Era Abril.
A nossa terra explodia em flores e ilusões.
Entornavam-se cravos das janelas, que iam inundando o coração dos homens bons que tinham acreditado num mundo melhor. Nessa altura... "o homem foi irmão do homem"!
Eu, Mariana, testemunhei as lágrimas que corriam dos rostos dos cidadãos ultrajados e 'desiludidos que sempre acreditaram na redenção.
E chorei com eles... porque me estendiam a mão, sem me conhecer, para que cantássemos juntos canções de esperança.
Foi o tempo bom dum país liberto que acreditava num futuro feito luz, como um arco-íris que desabrocha colorindo o céu após a tempestade.
Nascia uma nova ordem! E acreditámos todos!
E estávamos todos juntos!
E todos juntos tínhamos nos olhos e na alma a força dum povo com uma só voz... a voz da razão!
E pela primeira vez... votámos também, todos, as novas regras do bom senso que se chamava Constituição!
E fizemos isso civicamente; sem atropelos nem maldade, porque nesse tempo ninguém estava dividido... ou assim pensávamos!
Toda a gente se empenhava para a construção dum país melhor onde a felicidade fosse a palavra de ordem que pudesse sobrepor-se às outras palavras de ordem de cariz político, que posteriormente incendiaram e dividiram os cidadãos que ingenuamente haviam acreditado, por algum tempo... que realmente os homens se iriam entender em paz.
Porque a pureza de princípios e a lealdade é afinal uma utopia... passado o tempo do estado de graça do acreditar na verdade dos que afinal só sede tinham de poder... esvaiu-se o sonho dourado de cada um, como neve que se derrete com os primeiros raios de sol. E os homens dividiram-se!
E acantonaram-se atrás de ideais de partidos políticos que passaram a definir, cada um à sua maneira e na medida dos seus interesses... as regras do jogo que moldava a maneira como achavam que devia viver cada cidadão.
Sabes, Mariana... afinal o homem tinha virado "lobo do homem"! Alguns... poucos, como eu, ainda acreditam na solidariedade... no amor ao próximo... e na possibilidade duma vida vivida serenamente em paz.
Se calhar... são cretinices de velho!
À minha volta dou conta que a rádio, a televisão, os jornais... nos dão de presente envenenado um mundo turbulento onde campeia o crime, a guerra, a corrupção e a mentira.
O mundo inteiro é agora um vulcão explodindo na fúria do ódio! O rosto da maldade esconde-se atrás de todas as espécies de crimes... contra todos nós, através do terrorismo, do tráfico multifacetado e da violência.
Interrogo-me porque ficou pelo caminho... aquele país em que todos acreditámos numa longínqua manhã de Abril!
Queria que herdasses de mim um Portugal melhor... e não sei se isso será ainda possível.
Não viveste como eu os tempos de todas as esperanças. Não viste ruir como eu os sonhos em que apostámos.
Daí o testemunho do sonho e das desilusões que a vida nos proporcionou. Deposito em tuas mãos uma mensagem de amor e esperança que só ao tempo de leres esta carta poderás perceber completamente.
Quando hoje te fui buscar à salda do colégio fiquei, uns momentos, de longe, a espreitar o teu bulício de criança, rindo descuidada, de mãos dadas com as tuas companheiras, numa confraternização despida de maldade, num tempo em que ainda á possível a amizade.
Foi então que me apercebi que o tempo do futuro eras tu!
E sonhei um universo onde todas as pessoas pudessem ser também... "crianças" felizes!
E decidi escrever-te, norteando-te em caminhos de seriedade... e apelando para que, um dia, possas contribuir para a construção dum mundo melhor.
Porque, ingenuamente, ainda continuo a acreditar na esperança! Porque sei que se quiserem... tu, e outros como tu, com a generosidade e a força que advém da juventude, podem ainda mudar tudo.
A mensagem final que te deixo, ditada pela experiência e fé que sempre pus no percorrer do meu caminho, é afinal um acreditar sem limites... num mundo melhor.
Colabora lealmente com o teu semelhante!
Entrega-te totalmente à tarefa de fazer do nosso pais um lugar onde se possa viver em paz, com dignidade... e orgulho de ter nascido em Portugal. Como vais conseguir tudo isso?!
Com amor, com uma entrega total ao teu trabalho, seja ele qual for,... com dignidade e seriedade de princípios.
Sei que o farás por mim; e por isso, esteja lá onde estiver quando abrires esta carta, fica lá a saber que terei muito orgulho de ti.
Esta mensagem de paz... e a enorme herança que, com toda a ternura, te posso deixar!
Um beijo... do teu avô!
Orlando da Fonseca Fernandes
Publicado por arestas em
05:21 PM